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Sem Lula, PT confirma finalmente Haddad como candidato à presidência

Ao fim de quase cinco meses de uma luta inglória nos tribunais para tornar a candidatura do ex-Presidente Lula da Silva numa realidade, o Partido dos Trabalhadores confirmou finalmente esta terça-feira o ex-autarca da cidade de São Paulo, Fernando Haddad, como candidato às eleições presidenciais do próximo mês.

A decisão foi tomada depois de não restar a Lula mais nenhuma via para contornar judicialmente a impossibilidade de se apresentar a eleições. Esta terça-feira terminava o prazo concedido pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para que o PT substituísse o ex-Presidente na “chapa”, depois de ter vetado a sua candidatura por causa da condenação em segunda instância pelos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

A decisão era aguardada à medida que se aproximava a data limite imposta pelo TSE. A imprensa brasileira já dava como certa a apresentação de Haddad, embora a defesa de Lula tivesse interposto nos dias anteriores um novo recurso junto do Supremo Tribunal Federal (STF), baseado nas recomendações do Comité de Direitos Humanos da ONU, que diziam que os direitos políticos do ex-Presidente devem ser preservados.

Porém, nem Lula nem o PT quiseram arriscar desafiar o prazo dado pela justiça eleitoral, correndo o risco de ver a candidatura definitivamente inviabilizada.

A entrada em cena de Haddad abre um novo capítulo na campanha para as eleições presidenciais brasileiras. Até agora, por não ser oficialmente o candidato à presidência, o ex-autarca tinha um raio de acção diminuído, não podendo, por exemplo, participar nos debates televisivos nem nas entrevistas.

Como “vice” de Lula, Haddad era já o rosto da campanha da coligação “O Povo Feliz de Novo” e passou a última semana nos bastiões do “lulismo” no Nordeste e nos subúrbios de São Paulo, junto dos fortes sindicatos que apoiam o PT. Mas agora, o ex-ministro da Educação terá de assumir o protagonismo numa das eleições mais complexas da história recente do Brasil.

O grande desafio para Haddad é conseguir traduzir a elevada popularidade de Lula – é de longe o político com mais apoio no país, com 30% das intenções de voto – em votos na “chapa” que lidera. A menos de um mês da primeira volta, marcada para 7 de Outubro, o problema é que o candidato terá de começar rapidamente a beneficiar desta potencial transferência de votos.

“A questão é se dá tempo nas circunstâncias actuais e com as limitações de campanha: Lula não pode gravar, abraçar o candidato, rodar o Brasil com ele”, diz à BBC o professor da Universidade de São Paulo, Pablo Ortellado. Acresce ainda que a base de apoio tradicional do PT coincide com a população menos escolarizada e com menor acesso à informação, e que por isso tende a demorar mais tempo a interiorizar uma nova liderança. Ao contrário de Lula, que vinha de um meio pobre e entrou na política através do movimento sindical, Haddad é um académico pouco conhecido mesmo entre o eleitorado do PT fora de São Paulo.

Sobre a candidatura de Haddad pesa ainda o fantasma da corrupção representada pela própria prisão de Lula e que pode ter afastado muitos eleitores do PT. O próprio Haddad foi acusado de vários crimes relacionados com a sua gestão em São Paulo pelo Ministério Público local, embora o candidato rejeite todas as acusações.

A sondagem mais recente, revelada esta segunda-feira, mostra que ainda antes de Haddad ser entronizado candidato já começava a subir nas intenções de voto, estando agora perto dos 9%. No entanto, a disputa pela passagem à segunda volta promete ser renhida, com várias candidaturas ainda muito próximas.

A passagem de testemunho marca também o mais que provável fim da carreira política de Lula, que via na potencial candidatura a um novo mandato no Palácio do Planalto uma forma de defender o legado dos oito anos da sua governação. A cumprir os primeiros tempos de uma pena de prisão de mais de 12 anos, a prioridade do ex-Presidente, que chegou a ser o chefe de Estado com a taxa de aprovação mais elevada do planeta, é a luta pela sua inocência e liberdade.

O PT, partido que ajudou a fundar ainda durante a ditadura militar, terá, por seu lado, de aprender a viver sem o seu líder mais influente e tentar regressar ao poder.

F: www.publico.pt

Sobre Francisco Marcos

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