Homem se joga do 17º andar de fórum em SP com criança de 4 anos no colo

O prédio do Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, na Zona Oeste de São Paulo, tem um vão livre de 70 metros de altura e já soma pelo menos seis mortes desde 2007. Na manhã desta segunda-feira, dia 29, um pai se atirou com o filho de 4 anos.

Como se tentasse um último pedido de socorro, o motoboy Carlos Martins Kon Tien telefonou para uma amiga na manhã desta segunda-feira, dia 29. Queria dizer adeus. Na chamada de poucos minutos, informou que cometeria suicídio dali a algumas horas e que ela ficaria sabendo mais tarde, pela televisão. Ligou então para sua mãe, de 94 anos, avisando que não levaria o filho, de 4 anos, à escola. Com Bryan nos braços, Carlos pegou um ônibus próximo de sua casa, na Vila Galvão, em Guarulhos, e seguiu até o Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, na Zona Oeste de São Paulo. Era por volta das 10h50 quando encostou no balcão de um dos cartórios do fórum, pediu um pedaço de papel e uma caneta. Pelas imagens do circuito interno do fórum, é possível concluir que Carlos subiu até o 17º andar, atravessou uma faixa de isolamento, sentou-se no parapeito e, com o filho no colo, pulou.
Fachada do Fórum Tribunal Trabalhista Ruy Barbosa (Foto: Daniel Wainstein / Valor / Agência O Globo)

Carlos tinha 41 anos, estava desempregado e era pai de uma menina de 17 anos, além de Bryan. Segundo a delegada Monica Gamboa, do 23º DP de Perdizes, responsável pelo caso, Carlos não era parte de nenhum processo que tramitava no Fórum Trabalhista Ruy Barbosa. Ainda é cedo para alcançar os motivos que o levaram a tirar sua vida e a de seu filho. Em especial, por que escolheu o fórum como palco das mortes. Mas o histórico recente de suicídios ocorridos no Ruy Barbosa dá uma pista. Desde 2007, cinco pessoas se atiraram do prédio de 19 andares com uma facilidade incompreensível. Uma delas carregou por alguns metros um banquinho a fim de alcançar o parapeito. Outra teve tempo de tirar os sapatos antes de pular. Ninguém impediu.
Projetado pelos arquitetos Decio Tozzi e Karla Albuquerque, o Fórum Trabalhista Ruy Barbosa foi construído para centralizar setores da Justiça Trabalhista. É formado por duas torres, divididas em quatro blocos. Além de elevadores, há rampas múltiplas que conectam os 19 andares do prédio, deixando no centro um vão livre com 70 metros de altura – palco dos suicídios. Antes mesmo de ser concluído, o edifício foi centro de um escândalo de corrupção. Projetado em 1992, teve as obras interrompidas em 1998, quando foi descoberto um esquema envolvendo o ex-senador Luiz Estevão e o juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau. O magistrado, ex-presidente do Tribunal Regional do Trabalho de São Paulo, liderava um esquema que desviou mais de R$ 190 milhões dos recursos destinados à construção do prédio.
A servidora Inês Leal de Castro seguia um dia comum de trabalho quando ouviu um barulho forte na manhã desta segunda-feira. “Ficamos paralisados”, afirma. Um colega cogitou sair da sala, e logo foi barrado pelos outros. Cerca de dez minutos depois, pelo alto-falante veio a ordem de que o prédio deveria ser evacuado com tranquilidade, sem mais explicações. Coordenadora-geral do Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo, Inês já sabia do que se tratava. Estava ali nas ocasiões anteriores. Suspeita, inclusive, das razões que levaram servidores do próprio fórum a tirar suas vidas no local de trabalho. Das cinco pessoas que se mataram no edifício, uma era servidora; um, estagiário; e dois, reclamantes em processos. “Assim que percebemos a gravidade, pedimos um reforço na segurança do prédio e melhores condições de trabalho”, afirma. “Trabalhamos numa situação de pressão extrema. Uma vara atende, em média, 200 pessoas por dia. Falta servidor. Passamos o dia ouvindo gente pedindo e reclamando, com razão. São pessoas desesperadas por uma resposta para seu caso.”
Em março deste ano, depois de mais um suicídio no fórum, os servidores se reuniram com a desembargadora Silvia Devonald, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região. Além de Silvia, estavam presentes representantes da Ordem dos Advogados do Brasil e o arquiteto Décio Tozzi, responsável pelo projeto do prédio. Segundo Inês, Silvia afirmou que, por falta de recurso, não seria possível isolar o vão com vidros, alternativa menos agressiva do ponto de vista arquitetônico. Foi sugerida então a instalação de redes, igualmente inviável. A solução acordada na ocasião foi a colocação de tapumes. “Começaram a obra na semana passada, cinco meses depois da conversa”, diz Inês. “Queremos que o prédio fique interditado até finalizarem a instalação.” Procurado, o TRT da 2ª Região afirmou que “vem realizando intervenções no Fórum Ruy Barbosa a fim de aumentar a segurança de todos que frequentam a unidade”. Entre as medidas estão “a proibição do acesso às rampas entre os blocos do fórum e madeiramento de todos os parapeitos dos andares”.
Na manhã desta segunda-feira, nenhum segurança impediu Carlos de subir com o filho ao 17º andar. Próximo aos corpos dos dois, já no saguão, foi encontrada uma sacola com óculos, cigarro e doces. Segundo a polícia, Carlos deu doces a Bryan antes de se atirar com o filho no colo. No papel emprestado no balcão antes de morrer, escreveu os números de telefone da mãe e dos irmãos. Deixou um recado no verso do bilhete: “Às vezes tem um suicida na sua frente e você não vê (sic)”.

Época

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